A porta
Decidi hoje compartilhar um conto que escrevi no primeiro ano do ensino médio, para um desafio da aula de produção textual. A professora nos pediu para escrever o máximo que pudessemos sobre a porta da nossa sala, e apenas eu e mais um aluno aceitamos. O resultado eu deixo registrado aqui.
_____________________
A Porta
A porta da minha sala já estava gasta. Não era exatamente velha, talvez tivesse um pouco mais de sete anos, mas eu já havia visto muitas portas mais velhas e muitíssimo mais bem conservadas. Por algum motivo para mim desconhecido, a parte mais manchada nela é a maçaneta e seus arredores. Manchas de umidade, talvez. Não sei dizer. A tinta branca era feia. Um branco apagado, meio creme e meio cinza, porém ainda era branco. Branco de dente manchado, sem o amarelado. Não aquele branco bonito de carro novo, perolado e brilhante. Também não era aquele branco puro das folhas de papel novas e do leite. Péssima escolha de cor. Combinava com o resto da sala, na verdade. Era tudo gasto, feio e apagado. O cinza do chão e das paredes, o branco da lousa manchada, o preto do estofado das carteiras... Tudo parecia ter sido feito para tornar o ambiente monótono. A porta era o símbolo supremo disso para mim e, ao mesmo tempo, uma distração. Um refúgio da chatice do dia a dia. Toda vez que alguém aparecia naquela janelinha eu me via obrigada a deixar de prestar atenção por alguns segundos. Via a Lilian, a tia do corredor e os alunos das outras séries. Descobri em pouco tempo que o corredor da escola era um lugar movimentadíssimo: sempre tinha alguém passando por lá. A porta também rangia muito, de modo que era impossível não notar sempre que alguém saia ou entrava, quebrando o silêncio que imperava ou a linha de raciocínio do professor. De qualquer modo, aquele simples rangido significava uma pausa na rotina, mesmo que por poucos segundos.
Havia uma espécie de confraternização em torno da porta. Minha sala tinha o que um amigo uma vez chamou de "porteiros": alunos que ficavam na frente da bendita porta, conversando entre si e olhando algo. Talvez seus olhos procurassem o professor que daria a próxima aula, talvez a sala os sufocasse e eles buscassem algum conforto no corredor, bastião da liberdade dos estudantes. As duas ideias sempre me pareceram agradáveis, mas as vezes eu me perguntava se o ser humano realmente fazia tudo por um motivo. Talvez os porteiros apenas gostassem de conversar ali, com um ou outro aluno de outra sala, e era isso. Nem era algo consciente, eles só faziam. Essa ideia já me parecia menos poética, de modo que eu fingia que era algo inviável, mas lá no fundo sempre soube ser a mais provável.
Toquei na maçaneta daquela porta algumas poucas vezes, em sua maioria para ir ao banheiro. Nas raras ocasiões em que cheguei atrasada, a porta se manifestava comoo algo quase monstruoso. Assim que eu passasse por ela, seria o centro da atenção por um milésimo de segundo para algumas pessoas. Já era demais. Insuportável até. Me aconteceu de esquecer como se andava em uma ocasião. Bobeira de garotas adolescentes, eu sei, mas a ansiedade e o medo estavam lá.
A porta da minha sala era feia, velha e gasta. E era símbolo de liberdade e fonte de distração. Era única e, por isso mesmo, a melhor porta para aquela classe tão singular. Talvez algum dia eu fale sobre ela também.
Comentários
Postar um comentário